terça-feira, abril 17, 2007

Indícios do suicídio civilizacional (X)

O MAL

A maior parte das religiões têm duas vertentes. Uma exterior, voltada para as celebrações, que ajudou a estabelecer os ritmos das sociedades e ritualizou os momentos fundamentais (nascimento, iniciação, casamento e morte). Opto ainda por colocar na vertente exterior os actos que pedem a protecção divina. Depois, existe a parte interior da religiosidade, onde é necessário ir para além da mera crença e do cumprimento das regras. Aqui o indivíduo tem de aprende a «escutar-se a si mesmo» e a crença, a existir, já não é em algo facilmente catalogável, será num Deus que se define por aquilo que «não é» ou pela nossa natureza pura e original a que não temos acesso directo até nos realizarmos. Entra-se no reino dos mistérios e da entrega sem saber o que nos espera e, de preferência, sem nada esperar.

Tornou-se politicamente correcto dizer que a prática interior das religiões não é, na verdade, religião mas filosofia de vida. E para o comprovar há relatos de acontecimentos em que os mestres ousavam quebrar regras e, até mesmo, ter um comportamento anti-social. Enquanto a parte exterior da religião dedica-se à distinção simplista entre bem e mal, a parte interna está para além do bem e do mal. É evidente que isto torna-se apelativo para aqueles que, procurando uma dimensão mais profunda para as suas existências, não abdicam de uma liberdade irresponsável. Acham mesmo que a entrada nos níveis mais profundos da espiritualidade só é possível renegando a religiosidade exterior. Confundem, portanto, repúdio com transcendência.

Esta espiritualidade “Paulo Coelho” tem dois problemas. O primeiro, óbvio, é a selecção apenas dos trechos mais fáceis de compreender e de colocar em prática, ficando de forma os assuntos mais complexos e penosos de executar. Outro problema é a remoção do contexto, onde não se percebe que certas atitudes insólitas foram estratagemas pontuais para atingir determinados fins e não a regra. O contexto que se deve assumir é o da religiosidade exterior, este é o pressuposto. A parte mais profunda da religiosidade só é possível construir com base na religiosidade exterior. Esta base não necessita ser uma religiosidade explícita mas, pelo menos, um conjunto de valores essenciais, entre os quais o bem e o mal.

As referências ao mal causam aversão a muitas pessoas, e com alguma justificação. Parte da destruição da Igreja Católica ocorreu por dentro, pelos padres que durante gerações que não souberam fazer uma hierarquia dos vários níveis de mal e se dedicaram a vociferar contra a sexualidade e outros costumes, sem mostrarem qualquer compaixão. Ora, isto não só provocou fortes anti-corpos na sociedade como é uma adulteração do próprio cristianismo. O problema é que esta rejeição, compreensível, levou a rejeitar qualquer noção de mal, criando um terreno fértil para o relativismo absoluto.

O próprio «mal» tornou-se confuso, por vezes tomado como uma essência maléfica pronta a encarnar nas pessoas, que se adapta a produções cinematográficas. Ora, o «mal» mais não é que uma atitude que nos coloca fora de harmonia com o que nos rodeia e com nós mesmos. As religiões dão-nos pistas para isso mas, em última análise, é preciso recorrer à consciência pessoal porque é impossível saber até que ponto os sacerdotes estão ou não corrompidos. Mas renegar ao conceito de «mal» é negar a própria consciência pessoal.

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quarta-feira, março 28, 2007

Indícios do suicídio civilizacional (IX)

O BEM

Em crianças ensinaram-nos o que era o bem e o mal. Evitar o mal era a nossa protecção e afastava-nos do perigo. Mais tarde, na adolescência, na universidade, na vida adulta surgiram as novas fontes que nos desmentem a validade dos primeiros ensinamentos. O bem e o mal não existem, são coisas inventadas para nos provocar terror e nos incutir um sentimento de culpa, que nos castra socialmente e na nossa intimidade de modo a manter o poder dos padres, que surgem como salvadores dos papões que eles mesmo inventaram.

Assim formou-se uma sociedade de indivíduos com visceral aversão ao religioso, ao tradicional e ao conservador. Quando se tornam pais já nada têm para ensinar aos seus filhos. Tentam compensar a rejeição dos ensinamentos pretéritos com a adesão às novidades salvadoras. Seguem de forma pueril todas as indicações dos especialistas para uma vida saudável, para um correcto desenvolvimento psico-cognitivo dos filhos, para poupar 5 euros por ano em electricidade seguindo uma disciplina férrea em relação aos interruptores (na gíria técnica diz-se que “não custa nada”).

Uma vivência assim é resultado do declínio espiritual porque os indivíduos perderam qualquer noção de bem e de mal. O que antes era “o bem” deu lugar a uma tentativa de aceitar friamente as conclusões racionais das disciplinas do conhecimento humano como orientador principal. Note-se que o problema não está em aceitar a racionalidade mas em não perceber as suas limitações.

Aquilo que se chamava “o bem” tratava-se em grande parte de um conjunto de hábitos, comportamentos, ideias e rituais que resultaram de um longo processo de triagem civilizacional, cuja validade não foi decretada por ninguém mas descoberta através de miríades de pessoas que foram escolhendo o que consideravam ser as melhores opções para os seus problemas, com muitas tentativas e erros. A codificação das «melhores práticas» em códigos éticos e morais nunca é um processo feito de uma só vez. Mesmo as propostas surgidas de uma revelação religiosa tiveram os seus antecedentes culturais e só sobreviveram porque foram aceites e não impostas.

É um erro monumental pensar que a civilização ocidental vivia na obscuridade da irracionalidade religiosa até a chegada do iluminismo. Foi esse mesmo iluminismo que deu um impulso monumental a disparates como a astrologia. A religião não impediu a criação literária, arquitectónica, musical e até, pasme-se, o nascimento da ciência. Fazem passar constantemente a imagem oposta que nos custa a crer que é assim. Lembram-nos constantemente dos passos em falso da Igreja e esquecem quando foram os padres a impulsionar o saber e as artes. Passamos a acreditar que a religião e a tradição nada tinham de bom a oferecer e, sendo assim, “o bem” teria de vir de outras paragens.

Mas o que acontece se tivermos que substituir todo o legado religioso e tradicional? O antigo “bem” pode traduzir-se numa palavra: «confiança». Essa confiança resulta de uma conjunto mínimo de soluções para os aspectos fundamentais da vida, a que o homem tem acesso. Pode implicar esforço e sacrifícios, mas o exemplo de incontáveis homens que já seguiram os mesmos passos e triunfaram inspira confiança e, até mesmo, um certo sentido de transcendência.
Hoje em dia as queixas mais frequentes são sobre o stress e o mundo que muda cada vez mais rápido. O curioso é que a maior parte das pessoas que apresentam estas queixas tem uma noção muito reduzida das mudanças que o mundo sofre e vivem quase sempre num contexto de reduzida incerteza, ao ponto de se meterem em encargos que irão durar décadas. O que estas pessoas se queixam na realidade não é do que se altera mas do que deixou de ser permanente. Não é a pressão que os assusta mas o não terem armas para lidar com ela. É a sensação de serem sempre apanhados desprevenidos, dos seus problemas serem demasiados específicos e ainda não terem solução. Não só perderam a confiança em si mesmos como já nem sabem que é possível voltar a obtê-la, pelo que nem se apercebem que lhes falta confiança.

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quarta-feira, março 21, 2007

Indícios do suicídio civilizacional (VIII)

A VERDADE


O que é a verdade? Uma pesquisa elementar revela uma vasta literatura sobre algo aparentemente tão simples. É um campo de vasta abordagem na filosofia, através da lógica, da metafísica e da epistemologia, onde nasceram várias teorias da verdade e onde filósofos famosos apresentaram as suas perspectivas. Também as religiões têm as suas concepções da verdade a tender para a transcendência. Ter uma abordagem assim difusa sobre a verdade é considerada uma experiência enriquecedora por muitos, que sentem ganhar uma consciência mais desperta sobre o que os rodeia e sobre a sua posição no mundo. Tudo isto está muito bem não fosse um pormenor. Quando se esquece a concepção de verdade mais elementar, falar das “outras verdades” é apenas uma espiral niilista.

A concepção elementar de verdade refere apenas a conformidade com os factos ou com a realidade, que Aristóteles também definiu de forma alternativa através do princípio da não contradição. Não que Aristóteles tenha criado algo completamente novo, muito antes dele já se agia de acordo com a definição de verdade que ele formalizou. Claro que as limitações da lógica aristotélica são chatas, não permitem todo o tipo de devaneios. Mas não limitam a criatividade e a intuição na produção da actividade artística de forma antinatural, como alguns querem fazer crer. A arte em si está em plena conformidade com a realidade, caso contrário seria apenas uma experiência intelectual e não uma realização viva. Ou seja, a arte em si está limitada ao possível e ao realizado.

Já as experiências puramente intelectuais tem como única limitação o concebível, ou seja, o que a mente conseguir criar. E aqui o papel da lógica aristotélica é essencial, definindo os domínios da objectividade e da validação de resultados. Este papel de triagem é por natureza restritivo. Quem almeja a consagração, o elogio, o reconhecimento do génio próprio, terá tendência para abraçar efusivamente as ideias que lhe permitem validar uma criatividade mais lata. As correntes filosóficas desenvolvidas no século XX, que tiveram em Kant um dos principais inspiradores, seguiram um caminho relativista que se presta a isso. Aquilo que a velha lógica aristotélica chamaria de “disparates sem qualquer fundamento”, é encarado pelas teorias modernistas como visões mais ricas e libertadores, inteiramente válidas.

O sucesso destas modas filosóficas, quase todas monumentais embustes intelectuais, terá várias explicações. A adesão a elas não se dá mediante o escrutínio da razão mas, antes, através da sensação de se estar a emergir num ritual iniciático. Ideias de algibeira apresentadas em linguagem propositadamente obscura provocam nos aderentes uma sensação de assombro por imaginarem que entraram num domínio especial que os faz pertencer a uma elite de notáveis. Tal como referiu Jean-François Revel, trata-se de um elitismo de massas, com inúmeros seguidores mundo fora. Certamente serão uma minoria que representa parte ínfima da população. Contudo, a sua capacidade de influência é inversamente proporcional ao seu peso demográfico e, mais grave, inversamente proporcional à qualidade das teorias que defendem.

Este poder de influência advém das funções que genericamente desempenham: professores universitários, jornalistas, comentadores de «referência», ideólogos de partidos, planificadores sociais de carreira, etc. São estas pessoas que nos mostram o que é a modernidade e até que ponto alcançava a nossa imbecilidade antes de sermos atingidos pela luz que deles emana. E se não nos rendemos às revelações que eles com tanto altruísmo nos oferecem, tal só pode constituir prova da nossa obtusa ignorância.

Aos poucos forma-se uma segunda linha de militantes anónimos, que nem se apercebem que já aderiram à causa, os chamados idiotas úteis, que já não têm o gozo iniciático dos primeiros uma vez que vieram beber a moda filosófica por osmose social e se limitam a ser peões na defesa da modernidade totalitária. O trabalho incansável que realizam já nada tem em vista, é por essência niilista. A ideologia que professam é o “já nada faz sentido” e o principal slogan “quero lá saber”. Vêm aqueles que se esforçam para atingir algum objectivo concreto como fúteis, materialistas ou iludidos. São depressivos profissionais que pretendem a todo o custo contagiar os que à sua volta se encontram.

Incrivelmente, são incapazes de reconhecer que o estado letárgico em que se encontram resultou do abraçar de teorias niilistas e auto-destrutivas. Preferem culpar a tradição, a sociedade ocidental, a religião, a racionalidade. Há toda uma vasta gama de pseudo-profissionais da saúde (ou profissionais da pseudo-saúde), psicanalistas, psicólogos e até alguns psiquiatras que confirmam a origem de todas as maleitas de que sofrem, é o stress, é o estilo de vida ocidental, é a tradição judaica-cristã, é a herança reaccionária do tempo dos pais e avós que lhes provocaram traumas indeléveis, etc. Essencialmente culpam tudo aquilo que renegaram e não lhe passa pela cabeça averiguar se as próprias escolhas dos indivíduos, derrotistas e alienadas, não tiveram qualquer contributo.

Apesar do povo ser infinitamente mais sábio que estas aberrações existenciais que nos tentam iluminar, a humildade faz com que tenham consideração pelos “doutores”. Se aqueles que são apresentados como sábios dizem que 2 mais 2 já não são 4, quem é o povo para discordar? O melhor que tem de fazer é adaptar-se aos tempos que correm, até porque uma das coisas que ouve com mais frequência é que o mundo está a mudar mais rapidamente que nunca. Poderá querer isto dizer outra coisa a não ser que o que era certo no passado inevitavelmente deve ser renegado o quanto antes?

Os “doutores” e a modernidade validam-se reciprocamente. A modernidade é válida porque o confirmam estes senhores. E estes senhores são autoridades precisamente por defenderem a modernidade. É a única noção de autoridade que ainda nos resta.

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terça-feira, março 13, 2007

Indícios do suicídio civilizacional (VII)

Ainda antes de avaliar as falsas religiões alternativas, indiciadas no último post, faltam ver duas coisas. Falta abordar o papel edificador das religiões autênticas que, tenho de confessar, não posso assegurar sobre ele conseguir discernir de forma minimamente conveniente nos próximos tempos. Mas, ainda antes, resta também analisar em maior detalhe algumas consequências do declínio espiritual.

O declínio espiritual não provoca necessariamente um declínio geral. Pode até gerar um crescimento económico e uma fermentação social espantosas durante um determinado período de tempo. A razão é simples, confere maior liberdade. O declínio espiritual é sobretudo uma erosão da autoridade, que é sentida como liberdade. A liberdade que aqui se fala é a sensação de não haver limites para nada, no fundo a ideologia do terrorista. Ou seja, a sucessão de espasmos emocionais que ilude o indivíduo de estar cada vez mais perto da intocabilidade. O novo mundo que assim nasce baseia-se num crescente conferir de direitos que se baseiam numa lógica de não neutralidade. O paradigma é rejeitar o passado, a tradição, as instituições mais antigas e abraçar qualquer causa “moderna”. Ou seja, não é a liberdade de escolha mas a liberdade de censura sobre o passado.

A própria autoridade em si é mais complexa do que pode parecer à primeira vista. Alguns querem fazer crer que a erosão da autoridade é benéfica porque não é mais que um erradicar de um autoritarismo opressor. Acontece que é precisamente o contrário. O que está em causa é a própria liberdade de acreditar. Hoje em dia um crente dificilmente se pode manifestar em público. As suas crenças passam a ser como a sua sexualidade, ambas devem estar fora dos olhos da multidão. Mas aqueles que se regozijam de nos ter livrado desse terrível mal, segundo eles, que é a fé, apresentam por sua vez um cardápio de outras crenças disfarçadas de consensos científicos, políticos, médicos, etc. Estes novos evangelizadores não perdem muito tempo a tentar convencer-nos das suas “verdades”, são mais directos. Quando têm poder para isso simplesmente tentam proibir quem se atreve a levantar dúvidas. Por enquanto ainda utilizam como principal arma contra os cépticos o extermínio de carácter.

Este movimento rumo ao totalitarismo, que acontece dia após dia frente aos nossos olhos, só é possível porque uma das componentes da autoridade já deixou de fazer qualquer sentido para a maior parte das pessoas: o respeito pela verdade. Será o tema do próximo post.

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terça-feira, março 06, 2007

Indícios do suicídio civilizacional (VI)

DECLÍNIO ESPIRITUAL

O declínio espiritual é, sem dúvida, a principal causa do suicídio civilizacional. A obliteração do plano espiritual, ao contrário do que se possa pensar, não conduz necessariamente a uma anarquia social, a um erradicar dos movimentos de grupo. Há uma tentativa imediata de ocupação do espaço vago através de várias propostas alternativas. Um terreno que deixa de ser cultivado não é naturalmente substituído pelas variantes mais nobres do mundo vegetal mas sim pelas ervas daninhas. Acontece o mesmo nas matérias espirituais, as religiões seculares são substituídas por esoterismos descabidos, por versões adulteradas de várias religiões, por um sincretismo difuso de diversas espiritualidades e por uma tentativa de realizar a “modernidade”, que se expressa de formas tão diferentes como o ateísmo militante, a ecologia dogmática, a militância pelas causas progressistas (sim ao aborto, não à pena de morte; sim às drogas duras, não ao tabaco; sim à homossexualidade, não à família; sim ao terrorismo, sim à eutanásia) e claro, o eterno marxismo puro e duro.

O florescimento destas “aberrações espirituais” é comummente explicado pelo descrédito das religiões tradicionais e pela maior liberdade das sociedades ocidentais. O que nos omitem é que o descrédito das religiões tradicionais, especialmente o cristianismo, em muito se deve a um esforço anticlerical nascido do iluminismo e que se infiltrou na própria igreja católica. Apesar destas “espiritualidades alternativas” usarem a liberdade para se afirmarem e ganhar relevância, os seus fins últimos são, sem excepção, instituir algum tipo de totalitarismo.

Algo que nos permite perceber que estas “espiritualidades alternativas” não surgem espontaneamente é olhar para as suas consequências e ver como se conjugam e complementam. Subjacente está a crítica ao homem branco, ao estilo de vida ocidental, ao capitalismo e ao cristianismo. Pode-se argumentar que isto é uma generalização excessiva. Pelo contrário, diria que não é válida apenas para os curiosos que entram nestes movimentos sem grande empenho e que não ficarão por lá muito tempo. Os que lá permanecem, mais tarde ou mais cedo convertem-se ao anticristo, ao antiamericanismo e ao anticapitalismo. Note-se que esta conversão nada tem a ver com as críticas fundadas que se possam fazer ao cristianismo, aos EUA ou ao capitalismo. É uma conversão que anula o sentido crítico, que institui o bem e o mal absolutos e tudo rege segundo esta classificação, sem uma sombra de dúvida. É fácil constatar que os fins últimos destes movimentos são os que referi e não os que proferem em viva voz quando vemos grupos de feministas apoiando regimes islâmicos que tratam as mulheres das formas mais aberrantes, mas também quando os grupos de “trabalho gay” tecem loas ao regime cubano, que manda prender qualquer homossexual. Em ambos os casos, o verdadeiro objectivo é fazer pirraça aos americanos e, por extensão, ao ocidente.

Se bem que a conversão seja um acto repentino, ela resulta quase sempre de incontáveis horas de exposição a propaganda mais ou menos dissimulada. A vulgata marxista, pura e dura, não provoca mais que sorrisos na maior parte das pessoas. Contudo, a essência da mensagem tem sido passada com bastante eficácia por vários movimentos. O renovar da linguagem e o espartilhar do conteúdo por múltiplas fontes torna difícil a identificação da unidade do movimento que nos conduz ao declínio espiritual. Contudo, são fáceis de identificar as seguintes mensagens um pouco por todo o lado:

- Os crimes das minorias étnicas devem ser desculpados devido ao passado colonialista e esclavagista dos europeus;

- O terrorismo islâmico é provocado pela pobreza e pela existência de Israel, ambas culpa do ocidente, em especial dos EUA;

- O vegetarianismo deve substituir o “fast-food”, aliás, todos os outros géneros de culinária;

- Os homossexuais são mais sensíveis e criativos que os heterossexuais;

- A mulher deve ser descriminada positivamente em relação ao homem;

- O capitalismo é auto-destrutivo e conduz a desigualdades sociais;

- O estilo de vida ocidental está a provocar graves alterações no planeta;

- A religiosidade é o oposto da modernidade, da criatividade e da razão;

- O cristianismo é inferior às religiões orientais;

Os próximos posts analisarão as razões destas ideias serem mais ou menos erradas, mas também questionarão os motivos para a sua contestação ser tão rara nos meios de comunicação tradicionais, no ensino e nas universidades.

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terça-feira, fevereiro 27, 2007

Indícios do suicídio civilizacional (V)

Nada melhor para avaliar o futuro do que olhar para aqueles que o irão habitar, jovens, adolescentes, crianças e aqueles ainda por nascer. É frequente a questão: «Que mundo vamos deixar aos nossos filhos?» A pergunta não é tão relevante quanto isso, parece-me, sendo mais fundamental colocar em dúvida se os jovens de hoje estão a ser devidamente preparados para o futuro. E uma das características do futuro é a sua imprevisibilidade, cuja humanidade tem lidado, contrariando ou aproveitando, com a inteligência, capacidade de adaptação e criação de instituições que não mudam ao sabor do vento.

A atitude genérica dos pais em relação aos seus filhos tem muito pouca atenção ao futuro. Nas sociedades desenvolvidas actuais, uma criança que hoje entre no sistema de ensino tem elevadas probabilidades de sair de lá já com um diploma universitário. Até lá os pais vão-se esforçando para eliminar da vida dos filhos toda e qualquer dificuldade e, desta forma, acham que cumprem escrupulosamente os seus deveres parentais. Tendo em conta que actualmente há muitos licenciados que não passam de semianalfabetos, os pais que levam os seus deveres a sério deveriam estar um pouco mais atentos.

Acautelar o futuro dos filhos não é fácil nem nunca foi. Mas hoje há a perigosa ilusão de se ter descoberto a via do sucesso: facilitar, estimular a criatividade, derrubar barreiras, quebrar regras. Não faltam especialistas a alertar que qualquer reprimenda a uma criança é uma autêntica tortura. Portanto, se os pais não podem dar o mínimo castigo a uma criança birrenta e insuportável, o que fazer em opção? A resposta é óbvia, o suborno. Ainda os bebés não sabem falar e já dominam com mestria a técnica da chantagem, com a qual se tornarão reis e senhores do domicílio. Antes de entrarem para o ensino primário a maior parte das crianças já terá recebido mais presentes que os seus pais, avós, tios, etc. todos juntos nas suas vidas. Boa parte do tempo dos pais será dedicado a gravar DVD de animação e músicas infantis para os filhos. Irão multiplicar-se em iniciativas para não deixar que nada falte à criança. Questionados se não será excessivo dirão: «Quando fores pai logo saberás.» É curioso que pessoas que não tiveram 5 minutos do seu tempo para fortalecer o carácter dos seus filhos achem que merecem ser chamados de pais.
Após a entrada para a escola, a única preocupação dos pais é que os filhos carimbem com sucesso cada etapa. Aprender? Para quê? Eles sabem pela sua experiência que o saber não tem importância, o importante são os títulos. Os professores que lhes falam de indisciplina ou mesmo violência, para além de estarem obviamente a mentir, estão a atrapalhar o percurso escolar dos seus filhos, por isso há que ignorá-los, confrontá-los ou, à falta de melhor, ameaçá-los.
Até que ponto jovens como estes estão preparados para o futuro? Ignorantes, egocêntricos, sem vontade de aprender, sem capacidade de reagir à adversidade, sem valores, sem respeito pelos outros e pelas instituições? Relembrando o post anterior, serão estas as pessoas a ter de suportar o Estado Social que cuidará dos seus pais. E que viverão numa Europa que terá quase seguramente regredido em relação a todas as outras partes do mundo e que não terá quase nada a oferecer a não ser algumas ruínas históricas.

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terça-feira, fevereiro 20, 2007

Indícios do suicídio civilizacional (IV)

Carlo (“Charles”) Ponzi ficou conhecido por ter posto em prática, em 1919 nos Estados unidos, um esquema de fraude que passou a ser conhecido pelo seu nome (“Ponzi Scheme”). Não se tratou de uma inovação mas foi o primeiro a elaborá-lo em larga escala. A promessa de altos rendimentos num curto espaço de tempo sobre o dinheiro investido, sem qualquer esforço, foi sempre uma tentação para muitos. A sustentabilidade do sistema dá-se pela entrada de novos investidores mas também pela permanência dos antigos que se mantêm. Quem dirige o esquema tenta gerir expectativas, apresentando aos investidores registos que mostram os seus rendimentos sempre crescentes. Em Portugal tivemos um exemplo deste esquema com a Dona Branca.

Os esquemas de pirâmide são aparentados aos “Ponzi Scheme” mas são bastante mais frágeis porque cada investidor tem, por sua vez, que recrutar mais investidores, o que pede um crescimento exponencial de participantes. Contudo, em ambos os casos o colapso é inevitável porque o processo não gera por si mesmo qualquer riqueza. Tudo isto estaria apenas no domínio da criminologia ou das curiosidades se a Segurança Social não tivesse alguns elementos de “Ponzi Scheme”. A maior parte dos sistemas de segurança social não se baseia nem na poupança nem na capitalização mas nas contribuições coercivas dos elementos que vão progressivamente fazendo dele parte (PAYGO – “Pay as you go”). Mas só isto não chega para declarar a Segurança Social uma fraude.

O indício do suicido civilizacional está na falta de seriedade com que se abordou o conceito de Segurança Social durante muito tempo. Vejamos o caso português em concreto. Durante décadas responsáveis políticos de todos os quadrantes garantiram a sustentabilidade do modelo social e as poucas vozes que alertavam para alguns perigos eram ignoradas quando não ridicularizadas. O sistema foi criando direitos adquiridos sem ter em atenção a possibilidade de os realizar, permitiu reformas antecipadas em larga escala, ignorou largamente as carreiras contributivas e conferiu privilégios absolutamente escandalosos. Reunindo isto temos uma clara falta de sustentabilidade, pelo que as semelhanças com o “Ponzi Scheme” avolumam-se, com a agravante da aderência à Segurança Social ser obrigatória.

Há ainda quem argumente que os sistemas de Segurança Social são transparente quanto às suas intenções e quanto aos seus meios, ao contrário do “Ponzi Scheme” que esconde o seu propósito e o seu método até quando lhe for possível. Mas no caso português, acompanhado por vários outros, nem isso é bem verdade. Só recentemente começou a existir uma maior consciência que a Segurança Social funciona tipo PAYGO, já que antes a maior parte das pessoas achava mesmo existir uma poupança efectiva (o termo “segurança” é bem enganador). As alterações do modelo de Segurança Social anunciadas pelo governo de Sócrates no fundo já admitem implicitamente a cada vez maior semelhança que o sistema vinha a ter com um “Ponzi Scheme”. O objectivo é aumentar a sustentabilidade, aumentando a idade de reforma, que também passa a estar relacionada com o crecimento económico. Alguns países, como a Suécia, foram um pouco mais longe e já incluem contas pessoais de investimento.

A forma como se encaram estas situações indica qual é a vontade existente para a preservação do futuro da civilização. A comparação do “Ponzi Scheme” com a Segurança Social nem precisa ser completa. O engano trapaceiro do “Ponzi Scheme” é substituído até com maior eficácia pela coercividade da Segurança Social. O “Ponzi Scheme” está sempre condenado ao fracasso, a Segurança Social não, desde que acauteladas algumas condições. Mas mesmo neste caso não há um consenso. Uma solidariedade que depende da coerção não tem grande valia, já diziam os antigos. Pior que isso, é um fardo que se lança sobre gerações que ainda não nasceram. E mais uma ironia, numa altura em que se considera, e muito bem, de um péssimo gosto argumentar contra o aborto por motivos demográficos, são feitos inúmeros apelos à maior reprodução da populaça. Não há, no fundo, qualquer contradição porque as motivações não estão nos princípios mas na prossecução de objectivos egoístas.

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