sexta-feira, março 04, 2005

A vida intelectual dos macacos - 6


A atitude que referi anteriormente não é a única, em termos de má língua, em relações às questões da “nova espiritualidade”. Farei aqui uma pequena lista de confusões que acho mais comuns sobre esta matéria.

A noite é mais zen – ”O zen é zazen”, escreveu mestre Deshimaru. “Não há maior alegria na vida do que rapar o cabelo e sentarmo-nos em zazen”, disse mestre Kodo Sawaki. Há milhares de frases dos mestres sobre o zen, boa parte dela para exprimir que o zen é indizível. Escolhi duas quer remetem directamente à prática, citando-as de cor. Contudo, a utilização da palavra “zen” tornou-se comum e até de utilização comercial. Implícito parece estar algo assim místico e misterioso, de uma sensibilidade especial, que se tornou moda em certos meios urbanos, com alguma riqueza material adquirida mas ainda bastante ignorantes. Se alguém quiser saber algo sobre o zen, esqueça as filosofias. É muito melhor se tiver oportunidade de praticar, fazer zazen.

Manter a onda esótérica – Já me aconteceu várias vezes me iludir, ao falar com certas pessoas, por exemplo, de assuntos relacionados com o zen. Falo de forma séria, sem esoterismos à mistura e nisto, a pessoa pega no “testemunho” e começa a “desbobinar” toda uma arrazoada de disparates sem pés na cabeça. Aí percebo que para ela, é tudo a mesma coisa. Basta falar-se de assuntos que lhe façam lembrar qualquer coisa de transcendente, de preferência que nunca os cheguem a compreender, que lhes dão exactamente a mesma validade. Ao invés de se separar o trigo do joio, acontece exactamente o contrário, uma ânsia de colocar tudo no mesmo saco, de criar um mundo novo de ilusões.

Reiki e as unhas encravadas – Desconfianças de parte a parte. Muitos ainda acham que as chamadas “medicinas alternativas” são disparates pegados. Avaliação demasiado sumária. Pude constatar em mim mesmo a validade da medicina chinesa. Afinal, são coisas com milhares de anos, experimentadas em incontáveis pessoas e com teorias bem desenvolvidas. Contudo, muito esotéricos sofrem de preconceitos opostos. Acham que a medicina ocidental não tem nada para oferecer, desprezando incontáveis horas de investigação e provas dadas a cada instante nos hospitais deste mundo. Preferem experimentar todas as ervas milagrosas, antes de ir a um especialista convencional, por vezes tarde demais.

Acreditar no pelo do ovo – Algumas pessoas ficam fascinadas por certas ideias e filosofias. Mal de quem isso nunca tenha acontecido. Ideias que falam de possibilidades até aí nunca suspeitadas, causando enorme excitação, assim uma espécie de revelação. Contudo, algumas pessoas levantam os pés do chão e levitam com demasiada facilidade. Acontece que estas pessoas frequentemente acham que as suas novas ideias substituem todas as outras anteriores. E aos poucos afastam-se da realidade, conseguindo apenas pensar consoante aquilo que as suas verdades reveladas lhes permitirem. Para sustentar este absurdo, continuam sempre na busca de novas crenças, num mecanismo de compensação. E quanto mais estranhas, melhor.

O sábio das montanhas – As ondas esotéricas fazem lembrar James Bond. Parece que se está a viajar por vários locais do mundo constantemente. Citam-se os sábios indianos, os hábitos Japoneses, os eruditos chineses, os mestres sufis, os índios americanos... Há uma constante procura do exótico, como se o segredo estivesse aí. Mas penso ser um erro. O que sempre me interessou foram as coisas que mostraram ser universais, não uma particularidade qualquer que apenas tem sentido num determinado contexto. E por isso, a sabedoria pode-se encontrar onde quer que seja, e muito há também no ocidente, desde a mitologia grega às artes.

Harmonia de corpo e espírito – Uma questão que se pergunta com assaz frequência a pessoas que façam Yoga, Tai Chi, meditação, artes marciais, etc. é se “Isso faz bem?” As respostas são variadas, um aumento da forma física, da energia, na postura corporal, menos ansiedade, mais relaxamento, maior confiança. Alguns vão mais além, falando ter encontrado uma filosofia de vida, que os leva a ser melhores pessoas, mais sociáveis, que resolvem de forma adequada os conflitos exteriores e interiores, que encontraram um real sentido para as suas existências. Todas estas respostas têm implícito que estas práticas “fazem bem”. Contudo, a realidade, sem grande surpresa, é bem mais cruel. Sobre este tema, colocarei um post dedicado.